Fala galera, beleza?
Mais uma semana, mais uma cartinha. Essa sai enquanto eu e o Diniz estamos no meio do caminho pra China.
E pela primeira vez ela vem em três línguas: português, inglês e chinês. O botão pra trocar fica lá em cima.
A gente ainda nem pisou na China e já tem o nosso primeiro parceiro chinês. Essa é a história dele.
01Entrar na casa dos outros
Desde que a gente começou a pensar nessa viagem, uma coisa não sai da minha cabeça.
A gente está indo pra um país muito diferente. Que não é a nossa casa.
Sabe quando a gente vê um gringo chegando aqui esperando que todo mundo fale inglês? Pois é. Agora o gringo sou eu.
Tem uma coisa que a Fernanda sempre comenta, e eu acho ainda mais poderosa. Quando alguém fala de ataque de tubarão, ela pergunta: como assim, ataque?
Pra ser atacado por um tubarão, tu tem que entrar na casa dele, na água dele. Quem está incomodando é tu. Por mais forte que ele pareça, ele estava lá no canto dele, sem mexer com ninguém.
Vale pra muita coisa que a gente não conhece. A ideia é desmistificar: a casa não é nossa, então pede licença e pergunta como é que é o rolê por lá.
Isso não quer dizer ir devagar. A gente quer aproveitar essa oportunidade, que é meio mágica, e ser o mais agressivo possível pra conectar. Só que com uma ordem de prioridade bem clara:
Uma vontade enorme de fazer dar certo, que só fica abaixo do respeito pela galera de lá.
0212 pastas, 3 dias
- 12pastas
personalizadas - 3dias
de prazo
O autismo me obriga a me hiperpreparar pra tudo: criar cenário, fazer e refazer, ensaiar, ver o que dá pra fazer a mais.
Então quando chegou o material de apresentação da Tuya, a primeira empresa que a gente vai visitar, eu pensei: que legal que eles estão recebendo a gente. A gente devia levar pelo menos alguma coisa simbólica.
Fui pesquisar com o Claude o que dava pra fazer, junto com estudar a cultura: o que é respeitoso, o que faz sentido, o que fica ruim ou inconveniente.
Uma das coisas que eu aprendi: lá é legal entregar as coisas com uma embalagem caprichada.
Só que eu já não tinha tempo de fazer do jeito que eu queria. Aí começou a corrida:
- Quarta, de madrugada
Conversando com o Claude, veio uma ideia muito louca: e se a gente achasse empresas na China que pudessem entregar direto no hotel?
- WeChat, e-mail, o que desse
Saímos adicionando fábricas e abrindo conversa com elas.
- A primeira resposta
A Xiangsheng (翔升), uma pequena fábrica de papelaria em Pingyang. Ainda estou aprendendo a falar o nome direito.
- A honestidade
Não dava tempo de produzir do zero, e eles falaram isso de cara.
- O jeito
A Lin Xiaoshan (林小珊) achou no estoque uma pasta que servia e montou uma prova com a nossa logo. E ainda olhou o nosso desenho e disse: acho que fica melhor assim.
- Quinta, à tarde
Embarque.
Atenderam a gente tão bem que eu pensei: vamos colocar um valor a mais pra agradecer esse trampo e essa urgência, num pedido feito praticamente de um dia pro outro.
Ela disse que ficou emocionada com o gesto, e que ia garantir que tudo fosse feito com o maior cuidado.
E ainda faltava imprimir a proposta que vai dentro de cada pasta. Meu plano era levar impresso do Brasil, e não deu.
Fui pedir socorro: vocês conseguem indicar alguém que faça isso? Ela não só se ofereceu pra fazer, como não quis cobrar.
Resultado: eu chego na China com tudo pronto, me esperando no hotel.
03A aula que veio junto com as pastas
E tem mais uma camada nessa história. A pedido meu, a Lin leu as nossas propostas em chinês e avisou a gente de duas gafes culturais que a gente quase cometeu:
jǐn chéng. Um termo antigo, o jeito que um súdito se dirigia ao imperador. A gente ia chegar parecendo submisso demais.
cǐ zhì jìng lǐ. O formato de carta de escolas e órgãos do governo. Ficaria estranho numa proposta pro Alibaba.
shùn zhù shāng qí · algo como "desejo prosperidade aos seus negócios"
Ou seja: a gente achou que estava comprando pasta. E uma pequena fábrica de Pingyang deu uma aula de etiqueta de negócios e salvou a gente de pagar mico na frente do Alibaba.
Eu agradeci muito e a gente ajustou o texto. O que fica é isso: uma parceria baseada em confiança, e a gente aberto pra aprender com eles.
04O meu superpoder, calibrado
Tem mais uma coisa que eu acho interessante comentar.
O jeito que eu me relaciono com as pessoas às vezes é subserviente demais. Elogioso demais, muito de baixo pra cima. E isso pode me fazer perder negócio.
O recado: te trata como igual, não fica te rebaixando.
O engraçado é que, no pouco que eu conheci da cultura chinesa até agora, parece que eu encontrei um lugar onde essa minha admiração cabe.
Ela pode parecer exagerada pra alguém. Pra mim, é genuína. Eu tenho que me controlar mais pra não elogiar do que pra elogiar, e não calculo elogio do mesmo jeito que não calculo crítica.
A cultura de preservar a face, de respeitar, de honrar o outro... pelo menos nessa parte, eu tô me sentindo em casa. E mais livre pra ser esse meu lado natural.
Mas olha a ironia: o primeiro puxão de orelha que eu levei lá foi justamente por me rebaixar demais.
O súdito falando com o imperador. Era eu, versão súdito.
Prosperidade aos seus negócios. Honrar o outro, de igual pra igual.
Então, pelo jeito, as duas coisas são verdade ao mesmo tempo: dá pra admirar de verdade sem se rebaixar.
05O grande acontecimento já está acontecendo
Uma coisa que a gente está levando muito forte na postura e na proposta: a gente não está com pressa de fazer negócio com empresa chinesa. Estudando, eu já entendi que não é assim que eles fazem negócio.
Mas olhando pra como o material ficou legal, pra estratégia, e pra como foi divertido, prazeroso e acolhedor trocar ideia com a Lin, eu pensei: o real é que a gente já fez o nosso primeiro parceiro chinês.
Antes de pisar na China, a gente já foi bem recebido lá. Eu já chego me sentindo um pouquinho mais em casa. Acolhido.
E fico muito empolgado com o jeito que, pelo que me parece até agora, o povo chinês gosta de fazer negócio. Se conecta muito com o que eu acredito.